Rotina de Escritor: Como é sua rotina para
escrever?
Resposta: Tento escrever
todo dia, geralmente à tarde. Como gosto de fazer frases, o bloco de notas do
celular ajuda. Sempre que me ocorre
alguma ideia, escrevo-a nele para depois retrabalhar. Desse hábito pode sair
uma reflexão mais extensa ou mesmo uma crônica, gênero que gosto de praticar.
Rotina de escritor: Todo
escritor precisa de rotina?
Resposta: Se não de
rotina (no sentido de escrever todo dia à mesma hora, o que seria o ideal), de
continuidade. A escrita é um processo qualitativamente cumulativo; é preciso
escrever muito, e sobretudo reescrever, para aprimorar a forma. Há descobertas
que só se fazem com muita prática.
Rotina de Escritor: Rotina é um saco ou
essencial?
Resposta: Essencial. Se é
um saco, é um saco de surpresas. Ninguém espere ficar parado por muito tempo e
de repente ver brotar uma grande ideia.
Rotina de Escritor: Rotina, disciplina ou
inspiração?
Resposta: A inspiração é
um prêmio à aplicação. Ninguém se inspira do nada; é preciso antes botar o
cérebro para trabalhar. Depois de muito exercício é que alguma nova conexão se
estabelece e daí brota “a centelha” a partir da qual o texto vem à luz.
Rotina de Escritor: Num dia bagunçado, como
você se organiza?
Resposta: O ato de
escrever (como toda atividade intelectual ou artística) é um subtrair-se ao mundo
– em especial ao que está próximo, como o ambiente doméstico (daí não ser
bem-visto pelas esposas). Um dia bagunçado praticamente o inviabiliza. Nesse
caso, vivo a bagunça do dia e vejo se depois sobra algum tempo para,
calmamente, colocar as ideias no papel.
Rotina de Escritor: Quais hábitos que você
cultiva ou ignora na hora de escrever?
Resposta: Tenho maus
hábitos (como o de ficar relendo o texto antes de terminá-lo), e no propósito
de me livrar deles é que a escrita vai se produzindo (afinal de contas, não há
evolução que não resulte de uma superação). O processo é difícil, até a gente
se convencer de que se trata sobretudo de um trabalho com a linguagem. Se nele existe
alguma “iluminação”, é a da lâmpada suspensa no teto.
Rotina de Escritor: Autor experiente pode se
dar ao luxo de abandonar a rotina?
Resposta: Se for mesmo
experiente, ele terá concluído que precisa da rotina para escrever. Já
descobriu que não pode esperar se sentir “disposto”. O importante para escrever
não é como a gente se sente; é como a gente se senta.
Rotina de Escritor: Dá para ser escritor e
ter outro trampo e ainda se sair bem?
Resposta: Tem que dar,
pois do contrário ninguém escreveria. É preciso cuidar do ganha-pão, que só em
casos excepcionais a literatura proporciona. Isso torna ainda mais importante a necessidade
de haver uma rotina.
Rotina de Escritor: O que é pior: choro de
criança, o barulho da rua ou os latidos insanos do cachorro do vizinho?
Resposta: Não há
seletividade nos barulhos – a não ser quando o sujeito tem alguma neurose e
entra em pânico ao se deparar com um deles. Tudo que incomoda, tira a
concentração, desvia o pensamento – é ruim. Costumo dizer que escrever, para
mim, é “botar pra fora” – quero que fique longe do escritório qualquer pessoa
ou coisa que possa me atrapalhar.
Rotina de Escritor: Fale de quando tudo
começou e como do início até os dias de hoje?
Resposta: Comecei
lecionando português em cursinhos pré-vestibulares, depois me submeti a concurso
para a UFPB e iniciei a carreira acadêmica. Fiz mestrado e doutorado na UFRJ (neste
último defendi a tese “O evangelho da podridão; culpa e melancolia em Augusto
dos Anjos”). Orientei 37 trabalhos acadêmicos (entre iniciação científica,
mestrado e doutora) e fui por cerca de dez anos pesquisador do CNPQ. Em 2013 me
aposentei e no ano seguinte criei o curso que leva o meu nome, onde ensino gramática
e redação a concurseiros e vestibulandos. Paralelamente a tudo isso, sempre produzi
o que chamo de meus “exercícios literários” (sou mais um professor que escreve
do que um escritor que ensina). Tudo começou (e penso que deve ser assim para todos
da nossa estirpe) com o fascínio pela leitura e a predileção por certos autores.
Além de ensaios acadêmicos escrevi cinco livros de crônicos, e o que me fez gostar
do gênero e vir a praticá-lo foi a admiração por autores como Rubem Braga, Machado
de Assis, Carlinhos Oliveira, Fernando Sabino, Nelson Rodrigues e muitos
outros. Já o gosto pelas frases me foi despertado pela leitura de Millôr
Fernandes.
Rotina de Escritor: Como você divide sua
rotina entre o trabalho e a literatura?
Resposta: Escrevi muito
para jornal, o que me ajudou a me disciplinar; como diz Luis Fernando
Veríssimo, a melhor musa inspiradora é o prazo de entrega do texto. Isso serviu para forçar o trabalho e, ao
mesmo tempo, mostrar que a produção literária depende do hábito. Sempre alternei a escrita dos textos com o
trabalho em sala de aula, que vinha acompanhado da correção de redações. Por
sinal, fazer isso é uma ótima escola para quem pretende conhecer os mais comuns
deslizes da língua e os meios de saná-los. Meu método de ensino enfatiza a
refeitura, e felizmente os alunos gostam.
Rotina de Escritor: É duro a
rotina de escritor?
Resposta: Sem dúvida, mas
a melhora no rendimento, que se dá aos poucos, constitui uma enorme
gratificação. Além do mais, só resta a quem tem o dom praticá-lo – mesmo porque,
com raras exceções, quem o tem não dispõe
de habilidades para fazer outra coisa. O duro é perceber que esse trabalho é pouco
compensador do ponto de vista financeiro e que não dá para se devotar apenas a
ele. Deve-se escrever sobretudo pela satisfação
pessoal. A glória é mesmo fazer.
Rotina de Escritor: Quem são seus exemplos de
organização?
Resposta: Acho que todos
que não sejam eu são bons exemplos rsrs.
Rotina de Escritor: Dá para aconselhar um
autor iniciante baseado nas suas experiências literárias?
Resposta: Meu conselho é
que leiam e escrevam muito. Evitem o mundanismo, a pose e o excesso de exposição
(quem muito se expõe, pouco se impõe). A
solidão é o melhor adubo para o criação artística. O escritor deve conviver mais com seus fantasmas
do que com os indivíduos de carne e osso... E sobretudo tentem não sucumbir à
vaidade, que é uma armadilha nociva e às vezes fatal. Por melhor que o escritor seja, ele deve se
lembrar de que não passa de uma voz – brilhante, eventualmente refinada ou
profunda, mas sempre uma voz entre outras.
Rotina de Escritor: Fale dos seus projetos atuais e futuros.
Resposta: O projeto atual é, depois que responder a estas perguntas, corrigir redações e preparar a aula de hoje. Mas não sejamos tão imediatistas; pretendo dispor de algum vagar para selecionar dos meus blogs produções que mereçam constar em livros (o último deles, intitulado “O circo da vida”, é uma seleção de crônicas e foi publicado apenas na internet). Entre essas produções encontram-se as frases (que estão no blog “Penso, logo eis isto”) e um vasto material sobre reformulações de textos dissertativos que considero útil para quem quer aprender a redigir.
Nenhum comentário:
Postar um comentário