sexta-feira, 30 de maio de 2025

"Pervertido querubim", por Leo Barbosa

     


            
     Em Pervertido Querubim (2024), Chico Viana estreia na poesia trazendo à tona memórias íntimas, reflexões existenciais e lirismo. A obra não segue roteiro fixo, nem doutrinas – surge do tempo cultivado e da inspiração aliada ao labor. Professor, cronista e agora poeta, Viana busca oferecer beleza e provocar reflexões sobre a vida e a morte.

              O título do livro remete-nos ao “anjo torto” de Carlos Drummond de Andrade. Viana parece se valer em muitos momentos dessa figura drummondiana para explorar o vasto mundo da poesia. Essa ambivalência está presente no poema “Exílio”, que inicia a obra. 

         Aqui, nota-se uma voz interior dividida e expressa em termos existenciais: “Uma coisa em mim sabe/ Uma coisa em mim quer/ Uma coisa em mim sonha” [...] A repetição de “uma coisa em mim” reforça a presença de algo indefinível e inquietante, que habita o sujeito. Essa “coisa” que “sabe, quer, sonha”, mas “no fundo não é” promove a ruptura entre a aparência e a essência. 

             Em “Dual” o eu poético se apresenta em constante contradição: “Do que me lembro, esqueci.”; deslocamento interno: “Parti para onde me encontro.” – indicando uma busca de si mesmo num movimento que aparenta fuga, mas é também retorno; religiosidade ambígua: “Professo a fé na descrença.”, o que reforça o caráter paradoxal do sujeito.

         Muitos poemas são marcados por uma angústia filosófica, com oxímoros e paradoxos como instrumentos poéticos centrais, prevalecendo em boa parte um lirismo existencial, por vezes melancólico, com ecos da psicanálise (inconsciente, desejo, repressão). Em “Escolha” afirma: "A solidão é meu retiro."

"Prefiro ouvir meu coração." A solidão aqui não é apresentada como angústia, mas como recolhimento voluntário, um espaço de introspecção. Afastar-se da multidão pode ser entendido como uma negação do que impõe normas e expectativas sociais. O sujeito poético encontra no silêncio interno uma fonte de autenticidade.

             Também é recorrente o tema da efemeridade da vida. A “indesejada das gentes” – como diria Manuel Bandeira – aparece em “O quarto”, “Para Ruth” e “Dalila”, sendo este um poema no qual se aponta o quanto um animal irracional é capaz de nos ensinar sobre a morte e o morrer. 

          Recurso frequente em sua prosa, a metalinguagem de quando em quando também eclode em seus poemas. Nessa obra, a reflexão sobre o fazer poético está na apresentação e em “O que vale um poema”. Na estrofe: "Um poema vale a espera/ de que aconteça, um dia, / sua eclosão entre ritmos, / cadências e harmonias", o poema é comparado a algo latente, que amadurece até florescer — como se cada poema estivesse em gestação. Fala-se da espera, da paciência e do tempo necessários para que a poesia encontre sua forma – em ritmo, cadência e harmonia.

Homem afeito a reflexões linguísticas e existenciais, Chico Viana tateia no escuro o verbo exato, o adjetivo que afirma e ao mesmo tempo confere subjetividade. O texto poético traz consigo o equilíbrio entre a racionalidade e a subjetividade que, por ser marcada pelo inconsciente, releva signos que se entrecruzam entre o dizer e o não dizer. Um leitor atento e sensível consegue extrair das entrelinhas até mesmo a voz abafada, bem como gritos que clamam por atenção a temas sociais. 

         A temática social também está na obra, com destaque a “Cantiga para o menino morto”, “Aos mortos de Brumadinho” e “Mortos da pandemia”. Ademais, em meio a essa miscelânea escrita por longo tempo, não poderiam faltar poemas românticos, sendo estes dedicados à sua esposa, Denise. Nesses textos celebram-se o amor, o casamento e se homenageia quem esteve e está a seu lado em meio aos sabores e dissabores de uma vida a dois. 

         O poema “Quem?” encerra o livro e funciona como uma síntese lírica e existencial de toda a obra, reafirmando temas centrais já explorados ao longo dos poemas. É um desfecho coerente, pois culminam os dilemas do sujeito poético. O silêncio, a dúvida e a entrega final ao esquecimento tornam-se, paradoxalmente, formas de afirmar uma identidade poética marcada pela profundidade, pelo desvio e pela inteireza de quem vive com lucidez. 

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Leo Barbosa é professor, escritor, poeta e revisor de textos.

(Texto publicado no jornal A União em 30/5/25)

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