terça-feira, 7 de janeiro de 2025

A língua portuguesa em concursos públicos - Entrevista a Luzia Joana


Chico Viana é professor universitário aposentado, mestre e doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Orientou diversos trabalhos acadêmicos na pós-graduação em Letras da UFPB, todos vinculados à linha de pesquisa “Contributo psicanalítico à leitura do texto literário”. Publicou diversos livros, entre os quais “O evangelho da podridão”, originalmente sua tese de doutorado sobre o poeta Augusto dos Anjos, e “A rosa fenecida” (crônicas). É ainda colunista deste jornal, onde escreve aos domingos a coluna “Falou e Disse”.

        Fundou em maio último o Curso Chico Viana, especializado na preparação para vestibulares e concursos.

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1) O grande dilema para quem está começando a estudar para um concurso público é sempre por onde iniciar os estudos, o conteúdo é vasto, e a dúvida assola, muitas vezes, até desestimula os candidatos. Que orientações o senhor daria para quem resolveu ser um concorrente habilitado?


R. Geralmente os candidatos a concursos deixam para estudar português na última hora. É difícil, em pouco tempo, adquirir habilidade de leitura e domínio das normas gramaticais. As provas estão muito voltadas para a capacidade de o aluno interpretar e, eventualmente, produzir textos; diante disso, o concursando deve ter hábito de leitura e estudar durante um tempo razoável gramática. 

 

2)Recentemente, tivemos o concurso do INSS. Em João Pessoa, a concorrência para o cargo de técnico previdenciário foi de 856 candidatos por vaga; em Campina Grande, 341. Para o concurso da Procuradoria do Estado, a disputa foi de 84 barachéis do Direito por uma vaga de Procurador. Com uma disputa tão acirrada, em se tratando de Língua Portuguesa, que conteúdos devem ser
priorizados pelos estudantes? Que assuntos estão sempre presentes nas provas?

R. É fundamental conhecer as técnicas de leitura e interpretação dos textos, bem como se preparar de forma objetiva, ou seja, lendo e resolvendo provas anteriormente elaboradas por órgãos como Esaf, Cespe, Cesgranrio, etc. Na avaliação da gramática, o que se prioriza hoje são os mecanismos que promovem a textualidade, entre os quais se destacam a coerência, a coesão, a informatividade, a intertextualidade. Foi-se o tempo em que o importante era decorar nomenclatura e classificar orações. Hoje o aluno tem que demonstrar um conhecimento ativo, funcional, da língua.

 


3) Como professor de Língua Portuguesa, o senhor oferece curso preparatório para provas de concursos. Qual seria a grande dúvida dos alunos?


R. Eles têm muitas dúvidas sobre como ler e interpretar textos. O problema é primeiro semântico, tem a ver com a dificuldade em compreender o vocabulário. Depois se estende à esfera estrutural e lógica: muitos têm dificuldade, por exemplo, em colocar o texto na ordem direta. Além disso, revelam-se pouco aptos a fazer inferências, ilações – o que é fundamental para os textos que caem em provas de concursos, os quais privilegiam as idéias e não as emoções.

 


4)Dá para citar as grandes diferenças que existem entre os exames aplicados
pela Esaf, Cespe, Cesgranrio e  Fundação Carlos Chagas? Na sua opinião qual  melhor tipo de prova?


R. As provas da Cesgranrio e da Fundação Carlos Chagas tendem a privilegiar os conteúdos tradicionais da gramática. Isto não significa que sejam provas mais fáceis, nem que o questionamento gramatical siga os moldes antigos, que enfatizavam a nomenclatura e, consequentemente, a memória em detrimento da reflexão. Gosto muito das provas da Esaf, que exigem do aluno grande habilidade de leitura e inserem a gramática numa perspectiva ampla, funcional, exigindo do aluno mais a competência linguística do que a estritamente gramatical. As provas do Cespe priorizam a transversalidade, associando conteúdos de vários domínios do saber, e por isto se tornam às vezes confusas. Além disso, utilizam o critério, com o qual não concordo, de uma questão errada anular uma certa.


5) No dia a dia o que é possível ser observado nas leituras de jornaisrevistas que podem ajudar na hora de fazer um concurso?


R. Os bons jornais e revistas são excelentes subsídios para o conhecimento da língua. Neles geralmentebons articulistas, que dominam a palavra escrita e, pela própria natureza do veículo em que escrevem, são levados a exercitar ao máximo qualidades como a transparência, a síntese, a concisão. Esses escritos são referenciais preciosos para quem deseja produzir um texto claro e enxuto. Além disso, eles trazem informações de natureza variada, o que é essencial para aumentar a compreensão dos problemas que ocorrem no mundo. Sem este conhecimento, ninguém chega a ser um bom leitor.

 

6) Que tipos de leituras podem colaborar no aprimoramento do conhecimento da Língua portuguesa?

 

R. É fundamental, primeiro, conhecer os bons autores, os chamados clássicos, que constituem referência de expressão linguística. Neles se aprende gramática de maneira indireta, mas não menos eficaz. Sobretudo, neles se aprende a usar bem a língua. É preciso entender que a gramática nada mais é do que uma sistematização dos usos linguísticos presentes nos bons escritores. Se não se tem tempo para ler Machado de Assis, Graciliano Ramos, Clarice Lispector e outros, pode-se com muito proveito ler os bons colunistas de revistas e jornais.  O Brasil, historicamente, tem uma tradição de jornalistas-escritores que vem de Bilac, Machado, João do Rio, Nelson Rodrigues, Rubem Braga e vários outros. Esses autores morreram, mas deixaram um legado que se estende a muitos nomes hoje em atividadetanto no País quanto aqui mesmo, na Paraíba, ondeexcelentes cronistas.

 


7)Professor, passamos a vida inteira estudando a Língua Portuguesa, entretanto, há quem tenha enormes dificuldades em lidar com o idioma. O senhor  que é um apaixonado sobre o assunto, o que diria para esta pessoa?

R. Nossa língua não tem a simplicidade do inglês, é claro, mas não chega a ser um labirinto de obscuridade. Há problemas decorrentes da própria natureza flexional do idioma, que exige uma série de ajustes em níveis como o da concordância, da regência e da colocação. Temos idiotismos como o infinitivo flexionado, cujo uso muitas vezes confunde o falante. Excesso de homônimos tortura os estudantes, bem como uma ortografia que reflete a influência de várias outras línguas. Outro problema é o acento indicativo da crase, cujo mau uso decorre mais de desatenção que da dificuldade inerente ao assunto.

Por trás de tudo isso, no entanto, há no português uma racionalidade que explica essas variações de superfície. Quando se procura compreender, e não decorar, tudo fica mais fácil. A chave é esta: compreender, saber o motivo pelo qual se diz assim ou assado. Até assuntos como as regras de acentuação, que muitos insistem em conhecer de cor, têm a sua justificativa lógica.

8) Quando um candidato realmente está preparado para uma prova? Que critérios ele pode seguir para sentir-se apto a passar num processo seletivo cada vez mais acirrado?

R. O candidato está preparado quando estudou todos os itens do programa; quando elaborou muitas provas, de anos anteriores, referentes ao concurso que vai fazer; quando tem consciência de que foi preparado de acordo com as diretrizes que norteiam, hoje, a elaboração das provas de português. Uma boa orientação é fundamental, para que o concursando não corra o risco de estudar errado. Em provas de concursos, entre os quais o vestibular, é muito importante concentrar esforços naquilo que é decisivo. Para facilitar isso, tem-se todo um histórico de como procedem as entidades responsáveis pela elaboração das provas.

O professor tem que atentar para isto sem, no entanto, limitar o alcance de suas orientações. Quando o ensino é bem feito, ele transcende objetivos imediatistas. Quem estuda bem português não aprende para concursos; aprende para ser um usuário competente da língua pelos anos afora.

9) Quais as maiores dificuldades encontradas por candidatos que se preparam para concurso? O senhor acredita que a Língua Portuguesa é a chave paraclassificação do candidato?

 R. A maior dificuldade é se manter concentrado, traçar uma meta e procurar alcançá-la com persistência e disciplina. Existem alunos que se matriculam, freqüentam um mês e depois desaparecem. Um dia voltam, começam a frequentar de novo o Curso e desaparecem de novo. Parecem pessoas mal resolvidas, culpadas, que precisam em algum momento fingir que estão estudando. Essas jamais vão passar em concurso nenhum.

O bom conhecimento do português, se não constitui a chave única, é sem dúvida um instrumento precioso para a aprovação em qualquer concurso. E isso não apenas por Língua Portuguesa ser objeto de uma avaliação específica, em função da qual se mede a habilidade do aluno em pensar, ler, escrever. Sua importância vem ainda de que ele, o português, é o meio de formalização do questionamento das diversas disciplinas. Precisa-se ler bem para resolver, inclusive, um problema de matemática. Conhecer bem a língua materna é fundamental; somos seres de linguagem, a linguagem é o instrumento de mediação entre o homem e a realidade. É, enfim, o meio pelo qual cada um capta e externa sua visão de mundo.

 

10)Dá para ensinar a um adulto, muitas vezes com formação em curso superior, interpretar um texto? Quais as maiores dificuldades?

R. Sempre é possível melhorar o nível de leitura das pessoas, aprimorar-lhes  a capacidade interpretativa. Tenho alunos formados que, ainda assim, apresentam muitas dificuldades para apreender e relacionar os conteúdos de um texto. Isso não é fácil, pois envolve conhecimento linguístico e extralinguístico. Mas também não é difícil, basta se mostrar ao aluno que o texto tem uma enorme riqueza a ser explorada, o que será feito se ele souber ultrapassar certas barreiras. A primeira delas é o próprio vocabulário; em seguida vem a sintaxe, que envolve a compreensão dos elementos coesivos. A verdade é queníveis de leitura. Ler bem é explorar todas as virtualidades de um texto, relacioná-lo com outros textos e com o mundo ao redor. As bancas de concurso vêm cada vez mais exigindo essas habilidades.


11)No caso do Tribunal Regional do Rio Grande do Norte, os candidatos ao

cargo de analista vão se submeter a uma avaliação discursiva. Que cuidados eles precisam ter com este tipo de prova?

R. As provas discursivas permitem uma melhor avaliação dos conhecimentos linguísticos dos alunos, que são levados não apenas a reconhecer as estruturas corretas, mas também a produzi-las. Isso requer uma atenção redobrada. É preciso, por exemplo, muito cuidado com a ortografia e com a sintaxe de concordância e regência. Gramaticalmente, esses são os erros mais comuns nesse tipo de prova. A par disso, é preciso estruturar as respostas de modo a que elas efetivamente respondam o que foi pedido. Respostas lacunosas ou prolixas denotam um domínio precário do idioma, o que obviamente compromete a avaliação.


12)Na prova jurídica é essencial o bom domínio da Língua, quais as principais
preocupações?

 R. Repito o que gostava de dizer aos meus alunos da Esma, onde lecionei  entre 1986 e 1988: o texto jurídico exige sobretudo clareza e rigor. O vocabulário jurídico é unissêmico, ou seja, nele cada palavra tem um valor único, imune às extrapolações da linguagem figurada. A ele repugna a ambiguidade, qualquer desvio é comprometedor (enquanto o texto literário, por exemplo, tira sua riqueza dos desvios em relação à norma).

As provas dos concursos jurídicos exigem, então, do aluno a observância a essas peculiaridades de linguagem. Todo cuidado é pouco com a ordem das palavras, o sentido, a pontuação; uma vírgula mal colocada pode obscurecer o pensamento, gerar grave controvérsia interpretativa.

 

 

 

 

           

 


A relevância de Augusto dos Anjos para a literatura nacional - Entrevista a Flávia Lopes

           Chico Viana é professor da UFPB e doutor Teoria da Literatura pela UFRJ com tese sobre Augusto dos Anjos. Essa tese foi publicada com o título de “O evangelho da podridão; culpa e melancolia em Augusto dos Anjos”. O livro está esgotado mas em breve terá uma segunda edição, patrocinada pela Fundação Casa de José Américo.

 

                                                         Perguntas

 - Fale um pouco sobre a sua tese de Doutorado, e onde você fez. 

 A tese estuda a culpa e a melancolia em Augusto dos Anjos utilizando como subsídio a psicanálise. Mas não visa a psicanalisar o homem, e sim a obra, comentando alguns dos recursos linguísticos mediante em “Eu e outras poesias” se representa o afeto melancólico, ou seja, o luto pelo “objeto perdido”.

 

- Por que você quis estudar Augusto dos Anjos? O que lhe fascina nesse poeta?

 Sempre tive muita admiração por ele. Impressiona-me em sua obra a ruptura com a estética parnasiano-simbolista e o uso de recursos -- como o vocabulário coloquial -- que antecipam a modernidade. Outro aspecto que admiro é a originalidade das imagens. Essa originalidade decorre em grande parte de ele ter escolhido o corpo (em sua concretude sensorial) para falar das angústias espirituais.

 

- Como a literatura define o estilo desse escritor?

 É uma junção de expressionismo e barroco. A ênfase que ele dá ao significante, com o uso obsessivo de figuras fônicas (assonâncias e aliterações) e hipérboles, parece recobrir um vazio profundo, decorrente de o homem se ver acossado por contrastes, dualismos que não consegue conciliar.


- Como ele influenciou a literatura paraibana?

Augusto é desses autores únicos, cuja influência não atinge fácil os outros escritores. Uma de suas lições é a de que a poesia não é um domínio nobre, asséptico, a que se chega com “nobreza” de estilo. A poesia pode vir de vocábulos prosaicos ou de mau gosto. Pode-se “cantar o horroroso” e ainda assim produzir beleza.

 

- Qual a relevância dele para a literatura nacional?

Ele é um dos maiores poetas do nosso pré-modernismo. Nessa escola, figura ao lado de prosadores como Euclides da Cunha e Lima Barreto. Infelizmente foi mal compreendido pelo pessoal da Semana de Arte Moderna porque rimava e metrificava. Poucos perceberam o que havia de antecipatório e verdadeiramente moderno em sua poesia.  


- Muitos estudiosos acham que Augusto tinha problemas psicológicos, o que acarretava em suas poesias extremamente pessimistas. O que você acha disso?

Não acho que o pessimismo dele se devesse a alguma patologia específica. Tinha mais uma base filosófica, em razão da leitura de autores como Schopenhauer e Nietzsche. Augusto era um indivíduo estranho, mas querer explicar sua obra por algum tipo de patologia é reduzi-la a um agrupamento de sintomas. Muitas pessoas são doentes e não criam.

Grande parte do equívoco com que se avalia o paraibano vem de uma interpretação literal de suas imagens. Entende-se a “lepra” ou a “tuberculose” como referências reais, e não como metáforas orgânicas de uma consciência estrangulada pela culpa. Essa culpa, como ele bem ressalta, é a de todos nós -- uma espécie “que violou a lei da natureza”. Se somos “doentes”, se padecemos de uma melancolia incurável, é por causa dessa violação.

Para um bom desempenho nas provas de Português - Entrevista a Silvana Cibelle

 Chico Viana é professor aposentado da Universidade Federal da Paraíba e doutor em Letras pela UFRJ, com tese sobre o paraibano Augusto dos Anjos. Entre 1994 e 2000, compôs a banca de elaboração do vestibular, na COPERVE - UFPB, onde também elaborou provas para concursos (TRE, TJ, etc.) e para o Processo Seletivo de Transferência Voluntária (PSTV).

 

Na área do vestibular publicou, em 2000, “A síntese no Processo Seletivo Seriado da UFPB” e em 2003 um “Resumo interpretativo dos livros indicados para o PSS – 2004”, da mesma universidade. Recentemente criou o Curso Chico Viana, que visa a preparar alunos para concursos públicos e para o vestibular.

 

Publicou vários ensaios acadêmicos e livros de crônicas, entre eles “A Sombra e a Quimera; ensaios sobre Augusto dos Anjos” (2000) e “A rosa fenecida” (2002).

 

                                          Entrevista

 

Pergunta: Quem estuda Português para concursos públicos geralmente está acostumado a se deter apenas nas normas e regras mais comuns da gramática, não é mesmo? Isso é o suficiente para um bom desempenho nas provas?

 

Resposta: As avaliações de Língua Portuguesa para concursos e vestibulares têm cada vez mais centrado o seu foco na capacidade de leitura e interpretação. Mais importante do que classificar um termo sintático, ou justificar o uso de um acento, é o aluno ser capaz de compreender os mecanismos de coerência e coesão que dão unidade e sentido a um texto. A gramática é um instrumento auxiliar para isso, já que regula a chamada norma culta. Mas o aluno que se ativer apenas a um conhecimento passivo e nomenclaturístico da gramática seguramente não fará uma boa prova. É preciso aplicar esse conhecimento à habilidade de ler, interpretar e, eventualmente, produzir textos.

 

P.: Os concursos públicos também vêm explorando muito questões relacionadas à interpretação de texto? Isso é uma tendência que deve se manter nos concursos que vêm por aqui?

 

R.: Sem dúvida. Nas provas de concursos públicos, a capacidade de interpretação  é fundamental. Mesmo porque, nesse tipo de provas, o questionamento da gramática é às vezes sutil e se dispersa numa massa textual densa. É preciso uma atenção redobrada tanto para o conteúdo quanto para a forma. A capacidade de leitura é testada não apenas nas questões interpretativas, mas também nas de gramática, cuja avaliação deixou de ser segmentada, pontual. Hoje ela contempla sobretudo os mecanismos gramaticais que dão coerência e unidade ao texto. Essa tendência deve se manter por muito tempo, até que outra teoria desbanque a chamada lingüística textual, que vem orientando o ensino do português nas últimas décadas.

 

P.: Nas provas de concursos, como são os enunciados relacionados à interpretação de texto? Quais os tipos de questões mais comuns?

 

Eles variam muito, dependendo do tipo de prova aplicado. O que têm de comum é a exigência de que o aluno seja capaz de entender as ideias-chave do texto, distribuídas em parágrafos centralizados em torno de tópicos frasais. O tópico frasal é a sentença básica do parágrafo e deve ser apreendido para que, a partir dele, se hierarquizem as ideias do texto. Ler bem é distinguir idéias principais de idéias secundárias, terciárias, etc. Além desse trabalho eminentemente lingüístico, o aluno para bem interpretar deve ter informações de natureza sociocultural que o permitam articular o texto com o contexto, a língua com o mundo. Deve, enfim, ser um bom leitor.

 

R.: Como o candidato deve estudar para este tipo de prova? Estudar a partir de outras provas de Português é o melhor?

 

Resolver provas é um bom método de estudo, mas a tarefa do professor não deve se limitar a isso. A resolução de provas só funciona depois que o aluno recebe uma orientação teórica prévia, seguida de exemplos a ser avaliados. Tenho trabalhado a gramática a partir da produção textual dos alunos, o que funciona muito bem. A vantagem disso é que se objetiva o ensino dos conteúdos gramaticais, descartando-se informações secundárias, irrelevantes. Afinal de contas, já se foi o tempo em que o professor de português era admirado por saber detalhes que ninguém sabia – mas que, no fundo, não interessavam mesmo a ninguém. Em nossa época de objetividade, praticidade, o ensino da língua tem que ser prático e objetivo.

 

P.: Que tipos de conhecimentos em Português são exigidos com mais freqüência ? Em que assuntos o candidato não pode ter dúvidas?

 

Basicamente, exigem-se hoje os conhecimentos lingüísticos que promovem a compreensão (interpretação) e facilitam a produção textual. É muito importante, pois, conhecer os principais mecanismos de coesão e coerência (valor semântico dos conectivos, emprego dos pronomes relativos, significação das palavras, etc.), bem como conhecer a estrutura da oração e do período a fim de que se detectem problemas de pontuação. O aluno deve procurar resolver suas dúvidas ortográficas, já que a ortografia é uma espécie de cartão de visitas, bem como aquelas referentes à ocorrência da crase, que aparece com freqüência nas provas de português. Ferreira Gullar observou que a crase não foi feita para humilhar ninguém, mas infelizmente ela continua humilhando muita gente...

 

R.: Por fim, qual a orientação para quem vai fazer provas amanhã nos concursos do BNB e Incra? O que vale a pena ser revisado?

 

A orientação é que leiam uma, duas, três vezes os textos a ser interpretados, pois sem uma leitura muito cuidadosa não se faz uma boa interpretação. E revisem, além dos assuntos apontados na resposta anterior, tópicos de concordância, regência e colocação (tanto dos pronomes quanto do sujeito em relação ao verbo, pois a chamada ordem inversa comumente gera erros de concordância).

 

P.: O senhor acabou de criar o seu curso de português. Por que só agora fez isso e que planos tem para ele?

 

R.: A ideia de criar o meu curso é antiga, mas como professor em regime de dedicação exclusiva na UFPB eu não podia concretizá-la. Agora, que me aposentei, chegou o momento de tentar essa empreitada. Pretendo oferecer cursos de leitura, gramática e sobretudo redação, que é um domínio delicado e  difícil, para o qual é necessária muita experiência. 

Sobre o centenário de Augusto dos Anjos - Entrevista a Tiago Germano

 

Meu caro Chico Viana,

Aproxima-se o centenário de Augusto dos Anjos e o Jornal da Paraíba está se mobilizando para produzir um caderno a respeito da data. Será que podemos contar com sua colaboração, respondendo a uma entrevista?

Envio desde já as perguntas. Já ia entrar em contato e me animei ainda mais a fazê-lo depois de seu nome ser citado em uma entrevista que fiz com Hildeberto a respeito do tema.

Um grande abraço!

Tiago Germano



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1. Gostaria de saber, a princípio, se o senhor identifica, atualmente, algum tipo de linha de pesquisa acadêmica que tenha se destacado no tocante à obra de Augusto dos Anjos: o que tem predominado nos estudos mais recentes feitos sobre a poesia do autor do "Eu"?

R.: Augusto tem se prestado a vários tipos de abordagem. O que marca os estudos sobre ele na academia é o abandono das leituras biográficas, que tendiam a conceder mais ênfase ao homem do que à obra. As pesquisas acadêmicas detêm-se na forma, no artesanato, enfim, no texto. Um dos trabalhos pioneiros nessa linha foi o de Lucia Helena (A cosmo-agonia de Augusto dos Anjos). Outro, que não é bem de um professor universitário mas influenciou muito a crítica acadêmica, foi o de Ferreira Gullar (Augusto dos Anjos ou vida e morte nordestina). A força expressiva de Augusto, a riqueza de suas imagens, o nível de prospecção sobre o destino humano que há em sua obra têm estimulado estudos com base em pensadores fundamentais como Nietzsche, Freud, Schopenhauer.  É obra de um poeta maior, que estimula a crítica por sempre revelar novas possibilidades interpretativas.

2. O senhor compactua com o que se diz ultimamente de que Augusto não era de fato esta figura melancólica que é o seu eu-lírico, ou que mesmo o seu eu-lírico parece ter uma visão menos drástica da vida do que o que se pensava até hoje?

R.: Não é tão importante definir se Augusto, como indivíduo, foi ou não melancólico. Sua obra indiscutivelmente é. Procuro mostrar isso na minha tese (O evangelho da podridão) com base em elementos da psicanálise Há em “Eu e outras poesias” imagens que remetem ao luto pelo “objeto perdido”, a que se associam a rejeição ao erotismo e um forte sentimento de culpa. Segundo mostram Freud, Lacan, Julia Kristeva, Paul Ricoeur e outros, essas são marcas da melancolia, que se traduzem estilisticamente pelo excesso de antíteses (como no Barroco), por imagens de dissociação da matéria, por um dilacerante sentimento de culpa e por um desejo de redenção que reflete o anseio por “um homem novo”. O homem Augusto, claro, devia ter uma índole melancólica; ele não poderia escrever uma coisa e sentir outra. Humberto Nóbrega, em “Augusto dos Anjos e sua época”, procura mostrar o lado alegre do poeta, que na Festa das Neves escrevia versos humorísticos e amorosos. Realmente ele fazia isso, mas, conforme confessou em carta à mãe, com o objetivo de ganhar dinheiro. 

 

3. Sempre me parecem insuficientes as homenagens feitas, aqui na Paraíba, para o poeta. A memória dele me parece muito mais sentimental e afetiva do que institucionalizada. Essa minha impressão procede?

R.: Isso se deve, em parte, a que Augusto é mais do povo do que das instituições. Já se disse que ele foi salvo pelo povo, que o recita mesmo sem entender muito bem, fascinado pelo “mistério” das imagens e a musicalidade tensa, marcada pela aspereza das aliterações. O povo o compreende sentindo-o mais do que interpretando-o. Percebi isso, entre outras ocasiões, quando fui com um grupo a Leopoldina plantar sementes de tamarindo junto ao seu túmulo e pude conversar com as pessoas de lá (por sinal, eu soube depois que as sementes não frutificaram, e o tamarindo que deveria “agasalhar” de novo o poeta não vingou... por falta de cuidados institucionais). As instituições poderiam, como complemento à recepção popular, tornar o poeta objeto de estudos, concursos, seminários. A Universidade tem tido um papel importante graças às dissertações e teses que produz sobre ele e a eventos como o Conali, que vai homenageá-lo nos 100 anos de morte. Espero poder lançar também nesse congresso a segunda edição da minha tese, que foi publicada com o patrocínio da Fundação Casa de José Américo na gestão de Flávio Sátiro Fernandes Filho.

4. O senhor tem um contato mais direto com os jovens leitores de Augusto. Como é observar o efeito da poesia dele em diferentes gerações, antes e depois da internet, alguma mudança substancial?

R.: Os jovens conhecem pouco Augusto (falo sobretudo dos vestibulandos, com quem tenho trabalhado nos últimos dez anos). Ele não é um autor “fácil” devido ao léxico permeado de termos filosóficos e científicos. No entanto, quando levo à turma poemas como “Versos íntimos” ou “Tristezas de um quarto-minguante”, a receptividade é muito grande; são poemas em que ao dramatismo se associa o registro coloquial, por isso têm uma enorme atualidade. Sempre me ressenti de, em meus anos de Coperve, nunca ter conseguido incluir “Eu e outras poesias” (ou parte dele) entre as leituras indicadas para o vestibular, mesmo sendo o autor um dos nomes mais importantes do nosso Pré-Modernismo. Tentei, mas não encontrei entusiasmo pela ideia. Quanto à internet, não acho que tenha concorrido para aumentar a simpatia ou a antipatia pelo poeta – não mais do que por um Drummond ou um João Cabral, por exemplo.

 

5. O senhor continua pesquisando Augusto, tem algo em vista que possa nos adiantar?

R.: Depois que saí da universidade e passei a me dedicar ao meu curso, deixei de pesquisar o poeta. Frequentemente me procuram para dar indicações bibliográficas ou passar algum texto que escrevi sobre ele. Perguntam-me muito sobre “O evangelho da podridão”, que vez por outra aparece citado num trabalho acadêmico. Talvez um dia eu retorne à leitura do poeta com espírito de pesquisador, como fiz há alguns anos. Por enquanto, as preocupações e os compromissos são outros.

 

 

"Pervertido querubim", por Leo Barbosa

                        Em Pervertido Querubim (2024), Chico Viana estreia na poesia trazendo à tona memórias íntimas, reflexões existenciai...