Chico Viana é professor
universitário aposentado, mestre e doutor
em Letras
pela Universidade
Federal do Rio
de Janeiro. Orientou diversos trabalhos
acadêmicos na pós-graduação
em Letras
da UFPB, todos vinculados à linha de pesquisa
“Contributo psicanalítico à leitura do texto
literário”. Publicou diversos livros,
entre os quais
“O evangelho da podridão”,
originalmente sua
tese de doutorado
sobre o poeta
Augusto dos Anjos,
e “A rosa fenecida” (crônicas). É ainda
colunista deste jornal,
onde escreve aos domingos
a coluna “Falou e Disse”.
Fundou em maio último o Curso Chico Viana, especializado na preparação para vestibulares e concursos.
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1) O grande dilema
para quem
está começando a estudar para
um concurso público é sempre
por onde
iniciar os estudos,
o conteúdo é vasto,
e a dúvida assola, muitas vezes, até
desestimula os candidatos. Que orientações
o senhor daria para quem resolveu ser um concorrente
habilitado?
R. Geralmente
os candidatos a concursos
deixam para estudar português na última hora. É difícil,
em pouco
tempo, adquirir
habilidade de leitura
e domínio das normas
gramaticais. As provas
estão muito voltadas para
a capacidade de o aluno
interpretar e, eventualmente,
produzir textos;
diante disso, o concursando deve ter hábito de leitura e estudar durante um tempo razoável gramática.
2)Recentemente,
tivemos o concurso do INSS. Em
João Pessoa, a concorrência
para o cargo de técnico previdenciário
foi de 856 candidatos por vaga; em Campina Grande,
341. Para o concurso da Procuradoria do Estado,
a disputa foi de 84 barachéis do Direito por uma
vaga de Procurador.
Com uma disputa
tão acirrada, em
se tratando de Língua Portuguesa, que conteúdos
devem ser
priorizados pelos estudantes?
Que assuntos
estão sempre presentes
nas provas?
R. É fundamental
conhecer as técnicas
de leitura e interpretação
dos textos, bem
como se preparar
de forma objetiva,
ou seja, lendo e resolvendo provas anteriormente
elaboradas por órgãos
como Esaf, Cespe, Cesgranrio, etc. Na
avaliação da gramática, o que
se prioriza hoje são
os mecanismos que
promovem a textualidade, entre os quais se destacam a coerência,
a coesão, a informatividade, a
intertextualidade. Foi-se o tempo em que o importante era decorar nomenclatura
e classificar orações.
Hoje o aluno
tem que demonstrar
um conhecimento
ativo, funcional,
da língua.
3) Como professor
de Língua Portuguesa, o senhor
oferece curso preparatório
para provas
de concursos. Qual
seria a grande dúvida
dos alunos?
R. Eles têm muitas dúvidas
sobre como
ler e interpretar textos. O problema
é primeiro semântico,
tem a ver com
a dificuldade em
compreender o vocabulário.
Depois se estende à esfera
estrutural e lógica: muitos têm dificuldade,
por exemplo,
em colocar o texto na ordem direta. Além
disso, revelam-se pouco aptos a fazer inferências, ilações
– o que é fundamental
para os textos
que caem em
provas de concursos,
os quais privilegiam as idéias e não as
emoções.
4)Dá para citar as grandes diferenças
que existem entre
os exames aplicados
pela Esaf, Cespe, Cesgranrio e
Fundação Carlos Chagas? Na sua opinião qual melhor tipo de prova?
R. As provas da Cesgranrio e da Fundação Carlos Chagas
tendem a privilegiar os conteúdos
tradicionais da gramática. Isto
não significa que
sejam provas mais
fáceis, nem que
o questionamento gramatical
siga os moldes antigos,
que enfatizavam a nomenclatura
e, consequentemente, a memória em detrimento da reflexão.
Gosto muito
das provas da Esaf, que
exigem do aluno grande
habilidade de leitura
e inserem a gramática numa perspectiva
ampla, funcional,
exigindo do aluno mais
a competência linguística
do que a estritamente gramatical. As provas do Cespe
priorizam a transversalidade, associando conteúdos
de vários domínios
do saber, e por
isto se tornam às vezes
confusas. Além disso, utilizam o critério, com o
qual não
concordo, de uma questão errada anular
uma certa.
5) No dia a dia o que
é possível ser
observado nas leituras
de jornais e revistas que
podem ajudar na hora
de fazer um concurso?
R. Os bons jornais
e revistas são
excelentes subsídios
para o conhecimento
da língua. Neles geralmente
há bons articulistas,
que dominam a palavra
escrita e, pela
própria natureza
do veículo em
que escrevem, são
levados a exercitar
ao máximo qualidades
como a transparência,
a síntese, a concisão.
Esses escritos
são referenciais preciosos
para quem deseja produzir um texto claro e enxuto.
Além disso, eles
trazem informações de natureza variada, o que
é essencial para
aumentar a compreensão
dos problemas que
ocorrem no mundo. Sem
este conhecimento,
ninguém chega
a ser um bom leitor.
6) Que tipos de leituras
podem colaborar no aprimoramento
do conhecimento da Língua
portuguesa?
R. É fundamental,
primeiro, conhecer os bons autores,
os chamados clássicos, que constituem referência
de expressão linguística.
Neles se aprende gramática de maneira
indireta, mas
não menos
eficaz. Sobretudo,
neles se aprende a usar bem
a língua. É preciso
entender que
a gramática nada
mais é do que
uma sistematização dos usos linguísticos presentes
nos bons
escritores. Se não
se tem tempo para
ler Machado
de Assis, Graciliano Ramos, Clarice
Lispector e outros, pode-se com muito proveito ler os bons colunistas
de revistas e jornais. O Brasil, historicamente, tem uma tradição de jornalistas-escritores que vem de Bilac, Machado,
João do Rio, Nelson Rodrigues, Rubem Braga e vários outros. Esses autores
morreram, mas deixaram um legado que se estende a muitos
nomes hoje
em atividade
– tanto no País
quanto aqui
mesmo, na Paraíba, onde
há excelentes cronistas.
7)Professor, passamos a vida
inteira estudando a Língua
Portuguesa, entretanto, há quem tenha enormes dificuldades
em lidar com o idioma. O senhor que
é um apaixonado sobre
o assunto, o que
diria para esta pessoa?
R. Nossa língua não tem
a simplicidade do inglês,
é claro, mas
não chega
a ser um labirinto de obscuridade.
Há problemas decorrentes da própria natureza
flexional do idioma, que exige uma série
de ajustes em
níveis como
o da concordância, da regência e da colocação.
Temos idiotismos como
o infinitivo flexionado, cujo uso muitas
vezes confunde o falante.
Excesso de homônimos
tortura os estudantes,
bem como uma ortografia que
reflete a influência de várias outras línguas. Outro problema é o acento
indicativo da crase,
cujo mau
uso decorre mais
de desatenção que
da dificuldade inerente
ao assunto.
Por trás
de tudo isso,
no entanto, há no português
uma racionalidade que
explica essas variações de superfície. Quando se procura
compreender, e não
decorar, tudo
fica mais fácil.
A chave é esta: compreender,
saber o motivo
pelo qual se
diz assim ou
assado. Até
assuntos como
as regras de acentuação, que muitos
insistem em conhecer
de cor, têm a sua
justificativa lógica.
8) Quando um
candidato realmente
está preparado para
uma prova? Que
critérios ele
pode seguir para
sentir-se apto a passar
num processo seletivo
cada vez mais acirrado?
R. O candidato
está preparado quando
estudou todos os itens
do programa; quando
elaborou muitas provas, de anos anteriores,
referentes ao concurso
que vai fazer;
quando tem consciência
de que foi preparado
de acordo com
as diretrizes que
norteiam, hoje, a elaboração
das provas de português.
Uma boa orientação é fundamental, para que o concursando não
corra o risco de estudar
errado. Em provas
de concursos, entre
os quais o vestibular,
é muito importante
concentrar esforços
naquilo que é decisivo.
Para facilitar isso, tem-se todo
um histórico
de como procedem as entidades
responsáveis pela
elaboração das provas.
O professor tem que atentar para
isto sem,
no entanto, limitar
o alcance de suas
orientações. Quando
o ensino é bem
feito, ele
transcende objetivos imediatistas. Quem
estuda bem português não aprende
só para concursos; aprende para ser um usuário
competente da língua
pelos anos
afora.
9) Quais as maiores dificuldades
encontradas por candidatos
que se preparam para concurso? O senhor acredita que a
Língua Portuguesa é a chave para a classificação do candidato?
R. A maior dificuldade é se manter concentrado, traçar uma meta e procurar
alcançá-la com persistência
e disciplina. Existem alunos que se
matriculam, freqüentam um mês e depois
desaparecem. Um dia
voltam, começam a frequentar de novo
o Curso e desaparecem de novo.
Parecem pessoas mal
resolvidas, culpadas, que precisam em algum momento fingir que estão estudando. Essas jamais
vão passar em concurso nenhum.
O bom conhecimento do português,
se não constitui a chave
única, é sem
dúvida um
instrumento precioso
para a aprovação
em qualquer
concurso. E isso
não apenas
por Língua
Portuguesa ser objeto
de uma avaliação específica, em função da qual se mede a habilidade
do aluno em
pensar, ler, escrever. Sua importância vem ainda
de que ele,
o português, é o meio
de formalização do questionamento
das diversas disciplinas. Precisa-se ler bem para
resolver, inclusive, um problema de matemática. Conhecer bem a língua materna é fundamental;
somos seres de linguagem,
a linguagem é o instrumento
de mediação entre o homem
e a realidade. É, enfim,
o meio pelo qual cada um capta e externa
sua visão
de mundo.
10)Dá para ensinar
a um adulto,
muitas vezes com
formação em
curso superior,
interpretar um
texto? Quais
as maiores dificuldades?
R. Sempre é possível
melhorar o nível
de leitura das pessoas,
aprimorar-lhes a capacidade
interpretativa. Tenho alunos formados que,
ainda assim,
apresentam muitas dificuldades para apreender e relacionar os conteúdos
de um texto.
Isso não
é fácil, pois
envolve conhecimento linguístico e extralinguístico. Mas
também não
é difícil, basta
se mostrar ao aluno
que o texto
tem uma enorme riqueza
a ser explorada, o que
só será feito
se ele souber ultrapassar
certas barreiras.
A primeira delas é o próprio
vocabulário; em
seguida vem a sintaxe,
que envolve a compreensão
dos elementos coesivos. A verdade
é que há níveis
de leitura. Ler
bem é explorar todas as virtualidades de um
texto, relacioná-lo com
outros textos
e com o mundo
ao redor. As bancas
de concurso vêm cada
vez mais
exigindo essas habilidades.
11)No
caso do Tribunal
Regional do Rio
Grande do Norte,
os candidatos ao
cargo de analista
vão se submeter
a uma avaliação discursiva. Que cuidados eles precisam ter
com este
tipo de prova?
R.
As provas discursivas permitem uma melhor avaliação dos conhecimentos
linguísticos dos alunos,
que são
levados não
apenas a reconhecer
as estruturas corretas, mas também a
produzi-las. Isso requer uma atenção redobrada. É preciso,
por exemplo,
muito cuidado
com a ortografia
e com a sintaxe
de concordância e regência.
Gramaticalmente, esses
são os erros
mais comuns
nesse tipo de prova.
A par disso, é preciso
estruturar as respostas
de modo a que
elas efetivamente
respondam o que foi pedido.
Respostas lacunosas ou
prolixas denotam um domínio
precário do idioma,
o que obviamente compromete a avaliação.
12)Na prova jurídica
é essencial o bom
domínio da Língua,
quais as principais
preocupações?
R.
Repito o que gostava de dizer
aos meus alunos
da Esma, onde
lecionei entre
1986 e 1988: o texto jurídico exige sobretudo clareza e rigor. O vocabulário jurídico
é unissêmico, ou seja, nele cada palavra
tem um valor
único, imune
às extrapolações da linguagem
figurada. A ele
repugna a ambiguidade, qualquer
desvio é comprometedor (enquanto o texto
literário, por
exemplo, tira
sua riqueza
dos desvios em
relação à norma).
As
provas dos concursos
jurídicos exigem, então,
do aluno a observância
a essas peculiaridades de linguagem. Todo
cuidado é pouco
com a ordem
das palavras, o sentido,
a pontuação; uma vírgula
mal colocada pode obscurecer
o pensamento, gerar
grave controvérsia
interpretativa.