Chico Viana é professor da UFPB e doutor Teoria da Literatura pela UFRJ com tese sobre Augusto dos Anjos. Essa tese foi publicada com o título de “O evangelho da podridão; culpa e melancolia em Augusto dos Anjos”. O livro está esgotado mas em breve terá uma segunda edição, patrocinada pela Fundação Casa de José Américo.
Perguntas
- Fale um pouco sobre a sua tese de Doutorado, e onde você fez.
A tese estuda a culpa e a melancolia em Augusto dos Anjos utilizando como subsídio a psicanálise. Mas não visa a psicanalisar o homem, e sim a obra, comentando alguns dos recursos linguísticos mediante em “Eu e outras poesias” se representa o afeto melancólico, ou seja, o luto pelo “objeto perdido”.
- Por que você quis estudar Augusto dos Anjos? O que lhe fascina nesse poeta?
Sempre tive muita admiração por ele. Impressiona-me em sua obra a ruptura com a estética parnasiano-simbolista e o uso de recursos -- como o vocabulário coloquial -- que antecipam a modernidade. Outro aspecto que admiro é a originalidade das imagens. Essa originalidade decorre em grande parte de ele ter escolhido o corpo (em sua concretude sensorial) para falar das angústias espirituais.
- Como a literatura define o estilo desse escritor?
É uma junção de expressionismo e barroco. A ênfase que ele dá ao significante, com o uso obsessivo de figuras fônicas (assonâncias e aliterações) e hipérboles, parece recobrir um vazio profundo, decorrente de o homem se ver acossado por contrastes, dualismos que não consegue conciliar.
- Como ele influenciou a literatura paraibana?
Augusto é desses autores únicos, cuja influência não atinge fácil os outros escritores. Uma de suas lições é a de que a poesia não é um domínio nobre, asséptico, a que se chega com “nobreza” de estilo. A poesia pode vir de vocábulos prosaicos ou de mau gosto. Pode-se “cantar o horroroso” e ainda assim produzir beleza.
- Qual a relevância dele para a literatura nacional?
Ele é um dos maiores poetas do nosso pré-modernismo. Nessa escola, figura ao lado de prosadores como Euclides da Cunha e Lima Barreto. Infelizmente foi mal compreendido pelo pessoal da Semana de Arte Moderna porque rimava e metrificava. Poucos perceberam o que havia de antecipatório e verdadeiramente moderno em sua poesia.
- Muitos estudiosos acham que Augusto tinha problemas psicológicos, o que acarretava em suas poesias extremamente pessimistas. O que você acha disso?
Não acho que o pessimismo dele se devesse a alguma patologia específica. Tinha mais uma base filosófica, em razão da leitura de autores como Schopenhauer e Nietzsche. Augusto era um indivíduo estranho, mas querer explicar sua obra por algum tipo de patologia é reduzi-la a um agrupamento de sintomas. Muitas pessoas são doentes e não criam.
Grande parte do equívoco com que se avalia o paraibano vem de uma interpretação literal de suas imagens. Entende-se a “lepra” ou a “tuberculose” como referências reais, e não como metáforas orgânicas de uma consciência estrangulada pela culpa. Essa culpa, como ele bem ressalta, é a de todos nós -- uma espécie “que violou a lei da natureza”. Se somos “doentes”, se padecemos de uma melancolia incurável, é por causa dessa violação.
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