terça-feira, 7 de janeiro de 2025

A língua portuguesa em concursos públicos - Entrevista a Luzia Joana


Chico Viana é professor universitário aposentado, mestre e doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Orientou diversos trabalhos acadêmicos na pós-graduação em Letras da UFPB, todos vinculados à linha de pesquisa “Contributo psicanalítico à leitura do texto literário”. Publicou diversos livros, entre os quais “O evangelho da podridão”, originalmente sua tese de doutorado sobre o poeta Augusto dos Anjos, e “A rosa fenecida” (crônicas). É ainda colunista deste jornal, onde escreve aos domingos a coluna “Falou e Disse”.

        Fundou em maio último o Curso Chico Viana, especializado na preparação para vestibulares e concursos.

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1) O grande dilema para quem está começando a estudar para um concurso público é sempre por onde iniciar os estudos, o conteúdo é vasto, e a dúvida assola, muitas vezes, até desestimula os candidatos. Que orientações o senhor daria para quem resolveu ser um concorrente habilitado?


R. Geralmente os candidatos a concursos deixam para estudar português na última hora. É difícil, em pouco tempo, adquirir habilidade de leitura e domínio das normas gramaticais. As provas estão muito voltadas para a capacidade de o aluno interpretar e, eventualmente, produzir textos; diante disso, o concursando deve ter hábito de leitura e estudar durante um tempo razoável gramática. 

 

2)Recentemente, tivemos o concurso do INSS. Em João Pessoa, a concorrência para o cargo de técnico previdenciário foi de 856 candidatos por vaga; em Campina Grande, 341. Para o concurso da Procuradoria do Estado, a disputa foi de 84 barachéis do Direito por uma vaga de Procurador. Com uma disputa tão acirrada, em se tratando de Língua Portuguesa, que conteúdos devem ser
priorizados pelos estudantes? Que assuntos estão sempre presentes nas provas?

R. É fundamental conhecer as técnicas de leitura e interpretação dos textos, bem como se preparar de forma objetiva, ou seja, lendo e resolvendo provas anteriormente elaboradas por órgãos como Esaf, Cespe, Cesgranrio, etc. Na avaliação da gramática, o que se prioriza hoje são os mecanismos que promovem a textualidade, entre os quais se destacam a coerência, a coesão, a informatividade, a intertextualidade. Foi-se o tempo em que o importante era decorar nomenclatura e classificar orações. Hoje o aluno tem que demonstrar um conhecimento ativo, funcional, da língua.

 


3) Como professor de Língua Portuguesa, o senhor oferece curso preparatório para provas de concursos. Qual seria a grande dúvida dos alunos?


R. Eles têm muitas dúvidas sobre como ler e interpretar textos. O problema é primeiro semântico, tem a ver com a dificuldade em compreender o vocabulário. Depois se estende à esfera estrutural e lógica: muitos têm dificuldade, por exemplo, em colocar o texto na ordem direta. Além disso, revelam-se pouco aptos a fazer inferências, ilações – o que é fundamental para os textos que caem em provas de concursos, os quais privilegiam as idéias e não as emoções.

 


4)Dá para citar as grandes diferenças que existem entre os exames aplicados
pela Esaf, Cespe, Cesgranrio e  Fundação Carlos Chagas? Na sua opinião qual  melhor tipo de prova?


R. As provas da Cesgranrio e da Fundação Carlos Chagas tendem a privilegiar os conteúdos tradicionais da gramática. Isto não significa que sejam provas mais fáceis, nem que o questionamento gramatical siga os moldes antigos, que enfatizavam a nomenclatura e, consequentemente, a memória em detrimento da reflexão. Gosto muito das provas da Esaf, que exigem do aluno grande habilidade de leitura e inserem a gramática numa perspectiva ampla, funcional, exigindo do aluno mais a competência linguística do que a estritamente gramatical. As provas do Cespe priorizam a transversalidade, associando conteúdos de vários domínios do saber, e por isto se tornam às vezes confusas. Além disso, utilizam o critério, com o qual não concordo, de uma questão errada anular uma certa.


5) No dia a dia o que é possível ser observado nas leituras de jornaisrevistas que podem ajudar na hora de fazer um concurso?


R. Os bons jornais e revistas são excelentes subsídios para o conhecimento da língua. Neles geralmentebons articulistas, que dominam a palavra escrita e, pela própria natureza do veículo em que escrevem, são levados a exercitar ao máximo qualidades como a transparência, a síntese, a concisão. Esses escritos são referenciais preciosos para quem deseja produzir um texto claro e enxuto. Além disso, eles trazem informações de natureza variada, o que é essencial para aumentar a compreensão dos problemas que ocorrem no mundo. Sem este conhecimento, ninguém chega a ser um bom leitor.

 

6) Que tipos de leituras podem colaborar no aprimoramento do conhecimento da Língua portuguesa?

 

R. É fundamental, primeiro, conhecer os bons autores, os chamados clássicos, que constituem referência de expressão linguística. Neles se aprende gramática de maneira indireta, mas não menos eficaz. Sobretudo, neles se aprende a usar bem a língua. É preciso entender que a gramática nada mais é do que uma sistematização dos usos linguísticos presentes nos bons escritores. Se não se tem tempo para ler Machado de Assis, Graciliano Ramos, Clarice Lispector e outros, pode-se com muito proveito ler os bons colunistas de revistas e jornais.  O Brasil, historicamente, tem uma tradição de jornalistas-escritores que vem de Bilac, Machado, João do Rio, Nelson Rodrigues, Rubem Braga e vários outros. Esses autores morreram, mas deixaram um legado que se estende a muitos nomes hoje em atividadetanto no País quanto aqui mesmo, na Paraíba, ondeexcelentes cronistas.

 


7)Professor, passamos a vida inteira estudando a Língua Portuguesa, entretanto, há quem tenha enormes dificuldades em lidar com o idioma. O senhor  que é um apaixonado sobre o assunto, o que diria para esta pessoa?

R. Nossa língua não tem a simplicidade do inglês, é claro, mas não chega a ser um labirinto de obscuridade. Há problemas decorrentes da própria natureza flexional do idioma, que exige uma série de ajustes em níveis como o da concordância, da regência e da colocação. Temos idiotismos como o infinitivo flexionado, cujo uso muitas vezes confunde o falante. Excesso de homônimos tortura os estudantes, bem como uma ortografia que reflete a influência de várias outras línguas. Outro problema é o acento indicativo da crase, cujo mau uso decorre mais de desatenção que da dificuldade inerente ao assunto.

Por trás de tudo isso, no entanto, há no português uma racionalidade que explica essas variações de superfície. Quando se procura compreender, e não decorar, tudo fica mais fácil. A chave é esta: compreender, saber o motivo pelo qual se diz assim ou assado. Até assuntos como as regras de acentuação, que muitos insistem em conhecer de cor, têm a sua justificativa lógica.

8) Quando um candidato realmente está preparado para uma prova? Que critérios ele pode seguir para sentir-se apto a passar num processo seletivo cada vez mais acirrado?

R. O candidato está preparado quando estudou todos os itens do programa; quando elaborou muitas provas, de anos anteriores, referentes ao concurso que vai fazer; quando tem consciência de que foi preparado de acordo com as diretrizes que norteiam, hoje, a elaboração das provas de português. Uma boa orientação é fundamental, para que o concursando não corra o risco de estudar errado. Em provas de concursos, entre os quais o vestibular, é muito importante concentrar esforços naquilo que é decisivo. Para facilitar isso, tem-se todo um histórico de como procedem as entidades responsáveis pela elaboração das provas.

O professor tem que atentar para isto sem, no entanto, limitar o alcance de suas orientações. Quando o ensino é bem feito, ele transcende objetivos imediatistas. Quem estuda bem português não aprende para concursos; aprende para ser um usuário competente da língua pelos anos afora.

9) Quais as maiores dificuldades encontradas por candidatos que se preparam para concurso? O senhor acredita que a Língua Portuguesa é a chave paraclassificação do candidato?

 R. A maior dificuldade é se manter concentrado, traçar uma meta e procurar alcançá-la com persistência e disciplina. Existem alunos que se matriculam, freqüentam um mês e depois desaparecem. Um dia voltam, começam a frequentar de novo o Curso e desaparecem de novo. Parecem pessoas mal resolvidas, culpadas, que precisam em algum momento fingir que estão estudando. Essas jamais vão passar em concurso nenhum.

O bom conhecimento do português, se não constitui a chave única, é sem dúvida um instrumento precioso para a aprovação em qualquer concurso. E isso não apenas por Língua Portuguesa ser objeto de uma avaliação específica, em função da qual se mede a habilidade do aluno em pensar, ler, escrever. Sua importância vem ainda de que ele, o português, é o meio de formalização do questionamento das diversas disciplinas. Precisa-se ler bem para resolver, inclusive, um problema de matemática. Conhecer bem a língua materna é fundamental; somos seres de linguagem, a linguagem é o instrumento de mediação entre o homem e a realidade. É, enfim, o meio pelo qual cada um capta e externa sua visão de mundo.

 

10)Dá para ensinar a um adulto, muitas vezes com formação em curso superior, interpretar um texto? Quais as maiores dificuldades?

R. Sempre é possível melhorar o nível de leitura das pessoas, aprimorar-lhes  a capacidade interpretativa. Tenho alunos formados que, ainda assim, apresentam muitas dificuldades para apreender e relacionar os conteúdos de um texto. Isso não é fácil, pois envolve conhecimento linguístico e extralinguístico. Mas também não é difícil, basta se mostrar ao aluno que o texto tem uma enorme riqueza a ser explorada, o que será feito se ele souber ultrapassar certas barreiras. A primeira delas é o próprio vocabulário; em seguida vem a sintaxe, que envolve a compreensão dos elementos coesivos. A verdade é queníveis de leitura. Ler bem é explorar todas as virtualidades de um texto, relacioná-lo com outros textos e com o mundo ao redor. As bancas de concurso vêm cada vez mais exigindo essas habilidades.


11)No caso do Tribunal Regional do Rio Grande do Norte, os candidatos ao

cargo de analista vão se submeter a uma avaliação discursiva. Que cuidados eles precisam ter com este tipo de prova?

R. As provas discursivas permitem uma melhor avaliação dos conhecimentos linguísticos dos alunos, que são levados não apenas a reconhecer as estruturas corretas, mas também a produzi-las. Isso requer uma atenção redobrada. É preciso, por exemplo, muito cuidado com a ortografia e com a sintaxe de concordância e regência. Gramaticalmente, esses são os erros mais comuns nesse tipo de prova. A par disso, é preciso estruturar as respostas de modo a que elas efetivamente respondam o que foi pedido. Respostas lacunosas ou prolixas denotam um domínio precário do idioma, o que obviamente compromete a avaliação.


12)Na prova jurídica é essencial o bom domínio da Língua, quais as principais
preocupações?

 R. Repito o que gostava de dizer aos meus alunos da Esma, onde lecionei  entre 1986 e 1988: o texto jurídico exige sobretudo clareza e rigor. O vocabulário jurídico é unissêmico, ou seja, nele cada palavra tem um valor único, imune às extrapolações da linguagem figurada. A ele repugna a ambiguidade, qualquer desvio é comprometedor (enquanto o texto literário, por exemplo, tira sua riqueza dos desvios em relação à norma).

As provas dos concursos jurídicos exigem, então, do aluno a observância a essas peculiaridades de linguagem. Todo cuidado é pouco com a ordem das palavras, o sentido, a pontuação; uma vírgula mal colocada pode obscurecer o pensamento, gerar grave controvérsia interpretativa.

 

 

 

 

           

 


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