Meu caro
Chico Viana,
Aproxima-se o
centenário de Augusto dos Anjos e o Jornal da Paraíba está se mobilizando para
produzir um caderno a respeito da data. Será que podemos contar com sua colaboração, respondendo a uma entrevista?
Envio desde já as perguntas. Já ia entrar em contato e me animei ainda mais a
fazê-lo depois de seu nome ser citado em uma entrevista que fiz com Hildeberto
a respeito do tema.
Um grande
abraço!
Tiago
Germano
.................
1.
Gostaria de saber, a princípio, se o senhor identifica, atualmente, algum tipo
de linha de pesquisa acadêmica que tenha se destacado no tocante à obra de
Augusto dos Anjos: o que tem predominado nos estudos mais recentes feitos sobre
a poesia do autor do "Eu"?
R.:
Augusto tem se prestado a vários tipos de abordagem. O que marca os estudos
sobre ele na academia é o abandono das leituras biográficas, que tendiam a
conceder mais ênfase ao homem do que à obra. As pesquisas acadêmicas detêm-se
na forma, no artesanato, enfim, no texto. Um dos trabalhos pioneiros nessa
linha foi o de Lucia Helena (A cosmo-agonia de Augusto dos Anjos). Outro, que
não é bem de um professor universitário mas influenciou muito a crítica
acadêmica, foi o de Ferreira Gullar (Augusto dos Anjos ou vida e morte nordestina).
A força expressiva de Augusto, a riqueza de suas imagens, o nível de prospecção
sobre o destino humano que há em sua obra têm estimulado estudos com base em
pensadores fundamentais como Nietzsche, Freud, Schopenhauer. É obra de um poeta maior, que estimula a
crítica por sempre revelar novas possibilidades interpretativas.
2. O
senhor compactua com o que se diz ultimamente de que Augusto não era de fato
esta figura melancólica que é o seu eu-lírico, ou que mesmo o seu eu-lírico
parece ter uma visão menos drástica da vida do que o que se pensava até hoje?
R.: Não é
tão importante definir se Augusto, como indivíduo, foi ou não melancólico. Sua
obra indiscutivelmente é. Procuro mostrar isso na minha tese (O evangelho da podridão)
com base em elementos da psicanálise Há em “Eu e outras poesias” imagens que
remetem ao luto pelo “objeto perdido”, a que se associam a rejeição ao erotismo
e um forte sentimento de culpa. Segundo mostram Freud, Lacan, Julia Kristeva,
Paul Ricoeur e outros, essas são marcas da melancolia, que se traduzem estilisticamente
pelo excesso de antíteses (como no Barroco), por imagens de dissociação da
matéria, por um dilacerante sentimento de culpa e por um desejo de redenção que
reflete o anseio por “um homem novo”. O homem Augusto, claro, devia ter uma
índole melancólica; ele não poderia escrever uma coisa e sentir outra. Humberto
Nóbrega, em “Augusto dos Anjos e sua época”, procura mostrar o lado alegre do poeta,
que na Festa das Neves escrevia versos humorísticos e amorosos. Realmente ele
fazia isso, mas, conforme confessou em carta à mãe, com o objetivo de ganhar
dinheiro.
3. Sempre
me parecem insuficientes as homenagens feitas, aqui na Paraíba, para o poeta. A
memória dele me parece muito mais sentimental e afetiva do que
institucionalizada. Essa minha impressão procede?
R.: Isso se
deve, em parte, a que Augusto é mais do povo do que das instituições. Já se
disse que ele foi salvo pelo povo, que o recita mesmo sem entender muito bem,
fascinado pelo “mistério” das imagens e a musicalidade tensa, marcada pela
aspereza das aliterações. O povo o compreende sentindo-o mais do que interpretando-o.
Percebi isso, entre outras ocasiões, quando fui com um grupo a Leopoldina
plantar sementes de tamarindo junto ao seu túmulo e pude conversar com as
pessoas de lá (por sinal, eu soube depois que as sementes não frutificaram, e o
tamarindo que deveria “agasalhar” de novo o poeta não vingou... por falta de
cuidados institucionais). As instituições poderiam, como complemento à recepção
popular, tornar o poeta objeto de estudos, concursos, seminários. A Universidade
tem tido um papel importante graças às dissertações e teses que produz sobre
ele e a eventos como o Conali, que vai homenageá-lo nos 100 anos de morte. Espero
poder lançar também nesse congresso a segunda edição da minha tese, que foi
publicada com o patrocínio da Fundação Casa de José Américo na gestão de Flávio
Sátiro Fernandes Filho.
4. O
senhor tem um contato mais direto com os jovens leitores de Augusto. Como é
observar o efeito da poesia dele em diferentes gerações, antes e depois da
internet, alguma mudança substancial?
R.: Os jovens
conhecem pouco Augusto (falo sobretudo dos vestibulandos, com quem tenho trabalhado
nos últimos dez anos). Ele não é um autor “fácil” devido ao léxico permeado de
termos filosóficos e científicos. No entanto, quando levo à turma poemas como
“Versos íntimos” ou “Tristezas de um quarto-minguante”, a receptividade é muito
grande; são poemas em que ao dramatismo se associa o registro coloquial, por
isso têm uma enorme atualidade. Sempre me ressenti de, em meus anos de Coperve,
nunca ter conseguido incluir “Eu e outras poesias” (ou parte dele) entre as leituras
indicadas para o vestibular, mesmo sendo o autor um dos nomes mais importantes
do nosso Pré-Modernismo. Tentei, mas não encontrei entusiasmo pela ideia. Quanto
à internet, não acho que tenha concorrido para aumentar a simpatia ou a
antipatia pelo poeta – não mais do que por um Drummond ou um João Cabral, por
exemplo.
5. O
senhor continua pesquisando Augusto, tem algo em vista que possa nos adiantar?
R.: Depois
que saí da universidade e passei a me dedicar ao meu curso, deixei de pesquisar
o poeta. Frequentemente me procuram para dar indicações bibliográficas ou passar
algum texto que escrevi sobre ele. Perguntam-me muito sobre “O evangelho da
podridão”, que vez por outra aparece citado num trabalho acadêmico. Talvez um dia
eu retorne à leitura do poeta com espírito de pesquisador, como fiz há alguns
anos. Por enquanto, as preocupações e os compromissos são outros.
Nenhum comentário:
Postar um comentário